Duas figuras humanas estilizadas e unidas na parte inferior projetam-se para o alto, contornando um círculo do lado esquerdo e direito da mesma. Elas estão com os braços voltados para cima como se estivessem conquistando o seu espaço com independência. A figura da direita na cor verde limão, a da esquerda na cor azul escuro e o círculo central na cor azul celeste. Abaixo e um pouco à esquerda está escrito a com letras grandes a sigla UNACE com as mesmas cores da figura. Mais abaixo está escrito União Nacional de Cegos em azul escuro com letras pequenas

Referendo Microfone Braille: Um Locutor Nos Ares Da Inclusão

O quanto uma mensagem pode te emocionar? O quanto uma informação pode te encantar? É pensando nisso que convido a você a conhecer a história de Domingos Sávio, um radialista que leva a inclusão nos ares da comunicação. Este artigo científico contará um breve relato da história de conquistas e de força de vontade. Não perca tempo. e. comece a ler!

Thiago Fernando de Queiroz
Universidade Potiguar – UNP
[email protected]

Domingos Sávio Muniz da Fonseca
Universidade Estadual Vale do Acaraú – UVA
[email protected]

Priscilla Tatianne Dutra
Orientadora: Universidade do Estado da Paraíba (UEPB)
[email protected]

Resumo:
Uma narrativa, diversos sentimentos, uns momentos e histórias, um sonho; ser radialista. Este artigo autobiográfico abordará sobre a história de um homem que nasceu com uma deficiência visual e que desbravou diversos lugares para realizar seus sonhos. Será elencado também momentos marcantes de encontros e reencontros das experiências da vida que foram extraídas das memórias do radialista Domingos Sávio, bem como as ocasiões que elucidaram a criação do evento Referendo Microfone Braille; evento este que tem o cunho de propagar a inclusão e homenagear pessoas que são militantes nas garantias e direitos das pessoas com deficiência. Deste modo, por meio da metodologia autobiográfica, analise documental de literatura e de informações em sítios eletrônicos que contém fatos das lutas do personagem Domingos Sávio, será abordado o momento da infância, da distância de seu lar, do retorno a sua terra e das conquistas do sonhador que buscou levar nas ondas da rádio, a marca da informação e da inclusão.

Palavras-Chaves: Referendo Microfone Braille, Inclusão, Pessoa com Deficiência, Radialista, Autobiografia.

INTRODUÇÃO

Este referido artigo autobiográfico aborda sobre as narrativas e memórias de vivências e experiências de uma pessoa que nasceu com deficiência visual e que desde a infância sonhou em ser radialista. Suas conquistas advieram de tamanho esforço e dedicação, tendo que muitas
vezes se desprender das paixões que são inerentes à sua terra, local onde naceste; e, a família, ao qual conviveu desde o nascimento até sua partida no desbravar de oportunidades.
Pode-se elucidar que a memória é o lugar onde contém todo o contexto da existência de um ser, pois, dela se extrai as ações tomadas no cotidiano. Para Pollak (1992, pág. 3) “a memória é constituída por pessoas, personagens”; assim, o autor que foi investigado nessa pesquisa tece suas vivências aludindo ao contato dos sujeitos que perpassaram em sua vida. Atrelando sobre a pesquisa autobiográfica, Abrahão (2013) elenca que:
não obstante se utilize de diversas fontes, tais como narrativas, história oral, fotos, vídeos, filmes, diários, documentos em geral, reconhece-se dependente da memória. Esta, é o componente essencial na característica do (a) narrador (a) com que o pesquisador trabalha para poder (re) construir elementos de análise que possam auxiliá na compreensão de determinado objeto de estudo. (ABRAHÃO, 2013, pág. 2)

Neste contexto, será abordado a história de como surgiu o evento Referendo Microfone Braille; e, para isso, foro necessário uma análise de documentos literários e informações disponibilizadas em sítios eletrônicos, bem como pelas vivências e memórias do radialista Domingos Sávio Muniz da Fonseca, cujo o mesmo ao narrar suas histórias, mostrou que a superação e dedicação são as armas basilares para o sucesso. Todas as pessoas têm sonhos, porém, somente àqueles que persistem e acreditam em si, conseguem deixar marcas pertinentes à história da humanidade. Neste viés, vamos conhecer essa belíssima história de inclusão e superação.

1. CONHECENDO O DOMINGOS SÁVIO MUNIZ DA FONSECA

Nasci no dia 23 de fevereiro de 1970, no município de Macaparana, Interior do estado de Pernambuco, o município faz divisa com a Paraíba; entretanto, meu pai somente me registrou no dia 18 de março. Sou filho do Sr. Adélio Cipriano da Fonseca e de dona Eurides Muniz da Fonseca, ambos são agricultores. Meus pais tiveram sete filhos, dos quais, cinco têm cegueira causada pela Retinose Pigmentar.
Como quase todas as pessoas que nascem na região da Zona da Mata, norte no estado de Pernambuco, minha família era pobre. Por este viés, tive que começar a trabalhar desde cedo. Tenho em minhas memórias a lembrança de meus cinco anos de idade, onde eu trabalhava ajudando minha família cuidando na criação de cabras/bodes, galinhas, carneiros, vacas. Aos meus sete anos, por ideia de meu irmão mais velho, José Muniz; o mesmo me convidou para ganhar dinheiro tocando na feira de Pirauá, vila que aos sábados havia uma feira livre, a qual
atendia e abastecia a região, atendendo assim as necessidades das cidades vizinhas de Macaparana.
Mediante ao convite de meu irmão, fomos a bendita feira, porém, nunca iríamos falar com meu pai; contudo, falamos com minha mãe; e, tendo o consentimento dela, lá fomos nós. Chegando na feita, iniciamos logo a tocar, eu o melê e meu irmão sanfona. Foi muito marcante para minha vida este momento, não enxergava bem na época, contudo, lembro que senti muita vergonha por está pedindo dinheiro; e, com a cabeça baixa mediante a vergonha, observava atento o movimento, pois, estava com medo de meu pai chegar sorrateiramente. Entretanto, a alegria foi enorme ao ver as pessoas se aglomerando e colocando dinheiro na bacia, foi mágico esse momento. Porém, meu medo se tornou realidade, lá vinha meu pai, não sabia o que pensar ou o que fazer; ao chegar perto de nós, ele foi logo foi invadindo o espaço onde estava eu e meu irmão, e, puxando nossas orelhas, nos tirou do local.
Esse medo que eu havia passado, em pouco tempo se tornou trabalho duro, pois, meu pai observara que as pessoas contribuíam e gostavam daqueles meninos tocadores. Assim, ficamos na bendita feita até os meus quatorze anos de idade. Nesse período, viajamos para o estado da Paraíba e a grande Pernambuco, tocando, tocando e tocando; isso com o intuito de cada vez mais ajudar nossa família. Porém, em meados de meus quatorze anos, minha visão não era mais a mesma, e, entre viagens e viagens, recebi a oportunidade de ir estudar no Instituto de Cegos de Recife; hoje conhecida como Instituto de Cegos Antônio Pessoa de Queiroz (IAPQ).
Assim, comecei a trilhar o caminho dos estudos; cursei música teórica, cursei telefonia; e, logo nos anos 90, já era telefonista da Santa Casa de Misericórdia de Recife. Passei em um concurso na Secretaria de Saúde do estado de Pernambuco, cuja minha função era trabalhar na câmara escura do Raio-X.

2. AÇÕES QUE FOMENTARAM A CRIAÇÃO DO REFERENDO MICROFONE BRAILLE
2.1 INDO PARA SANTOS

Conforme estava obtendo conhecimentos no Instituto, me tornei ativista de várias ações em prol da defesa do segmento das pessoas com deficiência. Fiz parte de movimentos para impedir que a Santa Casa fechasse o internato do Instituto de Cegos, fiz parte também da fundação de um grêmio esportivo no internato e fundação de um grupo de forró, denominado de Arrasta Pé, dentre outras ações aqui não mencionadas.
Em 1998, a convite de meu amigo de internato e de profissão, Antônio José, ingressei como Diretor de Esportes para pessoas cegas na Associação Pernambucana de Cegos, onde permaneci até 2003; porém, tive que sair mediante discordar de atos da diretoria; contudo, não entrarei em questão a tal fato. Quando saí da APEC, percebi uma lacuna diante do segmento das pessoas com deficiência.
Ao perceber que no dia a dia à frente da Diretoria de Esportes da Associação Pernambucana de Cegos (APEC), no final dos anos 90, início dos anos 2000, observei que os espaços das mídias eram restritos para divulgar e fomentar a política de integração das pessoas com deficiência; me inquietei! Assim, fui procurar a Rádio Dom Bosco da cidade de Abreu e Lima, região metropolitana do Recife; no sentido de criar um programa que discutisse especificamente políticas atinentes às pessoas com deficiência. Portanto, ao chegar na Rádio Dom Bosco, que era uma rádio da Igreja Católica, enfrentei barreiras; entretanto, como não sou de borracha, que bate na barreira e volta, fui ao encontro dos responsáveis da Igreja. Procurei então o Padre Pedro Lapo, que era o diretor da referida emissora; hoje, o mesmo se encontra como vigário na Paróquia de São João Bosco, conjunto Gramoré, em Natal-RN. Assim, expus ao vigário o meu desejo de contribuir de forma efetiva na comunicação de massa para o segmento das pessoas com deficiência.
Por fim, ele não só me permitiu realizar uma programação, como nos deu a liberdade de trazer a rádio outros comunicadores, tivemos então o Programa Resgatando a Cidadania. Fiquei no ar de dezembro de 2004 até o mês maio de 2006, quando fui convidado para fazer reportagens para o Programa Comando da Tarde do amigo Jota Filho, Rádio Guarany AM, da cidade de Camaragibe cidade também da região metropolitana do Recife.
Na minha trajetória na rádio como produtor, locutor e entrevistador, me traz a memória hoje alguns fatos que me entristece, pois, convidei deveras pessoas em minhas programações, porém, poucas pessoas agradeciam; algumas até ajudei a alavancar seus negócios, contudo, não valorizavam minha atuação. Tudo isto me envelhecia deveras. Sim, a lacuna de oportunidade para divulgar o segmento das pessoas com deficiência passava a aparecer; e, eu crescia nele, mas, a aparecia era outra, pois, por não ter o certificado de radialista, não era reconhecido como tal. Deste modo, começa minha atuação em rádio.
Como observado, obtive algumas conquistas; todavia, ainda eu não estava satisfeito com essas conquistas. Sendo assim, fui tentar uma vaga para vereador no município de Igarassu, cidade metropolitana do Recife. Foi um fiasco; mas, a experiência nos fez entender melhor a política partidária e suas vertentes.

Chega o ano de 2007, e com ele, um novo desafio grandioso. Mediante à uma amizade que constituir com uma pessoa da cidade de Santos-SP, decido deixar o meu emprego de dezessete anos e dez meses na Santa Casa do Recife, minha família, meu nordeste e viajo para Santos-SP em busca de me tornar um radialista, de fato e de direito como era meu sonho. Até atuei no ano de 2004 como radialista em uma rádio; mas, me faltava o registro da profissão, ao qual me daria abertura aos veículos comerciais do ramo.
Desta forma que acabo instando minha vida na Baixada Santista, com um sonho enorme de mudar minha vida e realizar meus sonhos; porém, meu desafio foi o diferenciar do sotaque, cultura, costumes e o novo emprego. Entre todos esses desafios, obtive a conquista de uma vaga no SENAC/Santos, fiz uma prova para pleitear um desconto no curso ao qual almejava; e, assim comecei a cursar radialismo.
Na verdade, eu fui para Santos-SP mediante à uma paixão súbita pelo radicalismo, pois, uma amiga me informastes dessa cidade maravilhosa, e, que eu poderia cursar o curso ao qual almejava. Desta forma desembarquei na terra dos sete canais, dos jardins extensos pela orla da praia, a terra do saudoso rei Pelé e a terra dos conhecidos barões do café. Assim, me encontrei morando no bairro do José Menino, bairro este vizinho a cidade de São Vicente. Estando na baixada santista, meu dever agora era desbravar essa terra.
Em poucos dias, estava eu a procura dos diretores das Rádios Guarujá FM, Cultura FM e Cultura AM e dentre outras aqui não mencionadas. Agora me encontrei com o que tanto procurava, passei na prova do SENAC/Santos; e, iniciei o tão sonhado curso de radialismo.

2.2 DESAFIO NA EDUCAÇÃO

Comecei o curso, a sala continha vinte estudantes, com idades entre dezenove a sessenta e cinco anos. Nas primeiras aulas procurei fazer novas amizades, conhecer o que cada um almeja através do curso. Em alguns momentos, percebi que os professores não sabiam como repassar o conhecimento a mim mediante a deficiência visual, além do mais, eu era o único com deficiência visual em minha turma. Chegava até pensar, acho que essas pessoas não compreendem o motivo de eu está aqui!
Em um dia especial, na hora do cafezinho, o mais experiente da sala, seu Paulo Panocian me perguntou: Caro Domingos, você acha mesmo que vai conseguir terminar o curso? Acho você inteligente, mas, os professores não sabem como te ensinar! Neste momento eu já o tinha como uma referência da sala, não apenas por sua idade, mas, sobretudo, por ele ter uma bagagem diferenciada como baterista da cantora saudosa Elis Regina; e, por trabalhar no Rádio Santista a muitos anos. Após essas perguntas, não tive como responder, pois, havia terminado o intervalo, e, tivemos que entrar na sala a pedido de um professor.
Não pude responder ao amigo naquele momento, mas, aquelas palavras de algum modo me motivaram a focar mais em meus estudos. Assim, procurei me dedicar ao máximo, aproveitando cada momento de aprendizagem, para que deste modo, eu pudesse alcançar meu objetivo de ser radialista.
Passei então a procurar a biblioteca da instituição, observar o que havia de obras que servisse de apoio no meu curso e em meus conhecimentos. Cheguei a pedi a diretoria para nos juntássemos com os professores, para que deste modo buscássemos os caminhos que viabilizasse minha aprendizagem, porém, os resultados dessas conversas não serão expostas nesse artigo autobiográfico.
Ao final do curso, no dia da entrega do canudo, sim, o canudo! Ainda não haviam sido impressos nossos certificados. Entretanto, ao pegar o canudo, minhas lágrimas caíram de emoções; mas, não tão somente emoção da conclusão do curso. É que ali eu estava só, longe de minha família, de minha terra, de minhas coisas; porém, foi o caminho que escolhi.
Depois de me sentar no auditório, com o canudo no colo, ouvindo os outros receberem as congratulações; me veio uma pergunta: O que fazer agora? Agora sou de fato e de direito um radialista cego? Mas, de todo modo, estava eu orgulhando-me de tudo aquilo que sempre trilhei e almejei? Lembrei dos meus dias dentro da APEC, e respondi em média voz: Criarei um evento para agradecer em forma de homenagens os que fazem pela causa dos deficientes no Brasil.

3. SURGIMENTO DO REFERENDO MICROFONE BRAILLE
3.1 DE VOLTA A MINHA TERRA

Voltei para minha casa onde morava em Santos-SP; e, no caminho idealizei o referendo Microfone Braille, que nasceu no dia 04 de dezembro de 2009, no anfiteatro da Câmara de Vereadores da cidade de Cubatão-SP. Desta forma, passo a passo, fui trabalhando na construção do Microfone Braille, confesso que tive anseios; porém, como o saudoso pernambucano Paulo
Freire (1987: p.68) disse: ”Não há saber mais, nem saber menos, há saberes diferentes”; e, tecendo esses saberes que fui a luta de meus sonhos.
Por ser pessoa com deficiência, sinto na pele a falta de espaços que visem fomentar nossas potencialidades, que nos deem espaços em igualdade de oportunidades, para que possamos desenvolver nossas atividades. Ao contrário, há muitas limitações; barreiras que implicam em nosso cotidiano. Por este fato que decidi lutar, buscar ao máximo levar conhecimento e informação no que tange aos direitos desses sujeitos, permitindo-os que os mesmos possam se desenvolver em seus papéis na sociedade, e, que não sejam vistos como deficientes, e sim, como pessoas capazes.
Não posso deixar de mencionar que ao longo da história tivemos conquistas. Tivemos alguns documentos que garantem os direitos das pessoas com deficiência, porém, a efetividade desses direitos realmente é o que implica. A Declaração de Salamanca, a Lei de Acessibilidade (Lei nº 10.098/2000), a Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência; e, entre outros documentos.
Para isto, e baseado neste pensamento, criei em São Paulo, na cidade de Cubatão, no dia 04 de dezembro de 2009, o Referendo Microfone Braille. Na ocasião, eu fiz mais no desejo de querer contribuir no segmento das pessoas com deficiência e agradecer pela conquista de meu diploma. No entanto, eu não imaginaria que o evento tivesse uma repercussão enorme. Assim, me senti fortalecido para que ainda mais eu viesse a dedicar-me na realização da 2ª edição.
Como falei aqui, estava longe de minha família, da minha terra e dos meus entes queridos; mas, estava determinado a realizar a 2º edição do Microfone Braille; e, esta seria realizada em Santos-SP. Entretanto, a saudades de minha gente me fez pensar em voltar para o nordeste, minha grande Pernambuco. Tal vez, em algum momento, eu tenha cantado a canção que é conhecida por quase todos, eternizada pelo mestre Capiba: “Voltei Recife, foi a saudade quem me trouxe pelo braço.”

Em 16 de Março de 2010, desembarco no Recife, trazendo comigo a responsabilidade de continuar com o que deu certo em SP, o Referendo Microfone Braille. Me dediquei o resto do primeiro e o segundo semestre de forma muita intensa. Deste modo, realizei o grande evento da 2ª edição do referido evento no auditório do Instituto de Cegos do Recife.
Em 2011, procuro a direção do Instituto de Cegos novamente para levar o Referendo Microfone Braile à sua 3ª edição; isso para que não deixasse de acontecer. Foi possível, mas, me encontrava sufocado por não poder dá mais amplitude e desenvoltura ao evento; pois, nesse período, eu havia entrado na universidade para cursar pedagogia; e, me encontrava bastante estimulado. Nesse mesmo tempo, cheguei a pagar uma disciplina de Movimentos Sociais da Educação. Assim, motivado por tal disciplina, resolvi procurar a prefeitura de Igarassu e a Câmara de Vereadores e coloquei a proposta de realizar o Microfone Braille na sua 5ª edição. Contudo, mediante a questões políticas, tive que procurar outro lugar, isto porque não tive o apoio esperado.
Fruto de minha inquietude e busca por novos horizontes, telefono para Lucy Tertulina, presidente da Associação Caruaruense de Cegos propondo realizar a 4ª edição em Caruaru. Ela me falou: “Vamos, mesmo!” Então, realizamos e foi uma das melhores. Eles da ACACE nos conseguiram o Clube dos Diretores Lojista, direito a imprensa na cobertura do evento e muita gente presente.
Agora no ano 5º, chegamos em grande estilo ao município de Igarassu, cercado de expectativas por ser a cidade que moro. O plenário da Câmara Municipal foi pequeno para tanta gente. À partir desta edição surge um fato novo ao evento. Como me encontrava em mais um desafio na minha carreira, o de exercer o cargo de Coordenador da Pessoa com Deficiência da Prefeitura de Igarassu (onde estou até os dias atuais), muitos eram os pedidos de cadeiras de rodas, Não pensei duas vezes, procurei os empresários e políticos que tinha abertura, e logo consegui dez cadeiras, aos quais foram entregues pelo Microfone Braille. Fossando-me agora a agregar outros objetivos às edições seguintes.
No Ano 6º, 2014, como não havia ainda procurado patrocinador e as coisas só cresciam, decidi procurar políticos que me apoiassem no custeio das despesas; e, que o evento não caísse em descontinuidade. Tudo bem, até apareceu alguns, porém, eu deveria os apresentar como verdadeiros salvadores da pátria! Isto não era ao meu ver justo, visto que o evento nasceu de um puro sentimento do social e de cidadania. Mais uma vez, estou eu lá realizando o Microfone Braille com minhas economias.
Na 6ª Edição, resolvo trazer a cantora Katia, aquela mesma, afilhada do Rei Roberto Carlos. Liguei para diversas pessoas no Brasil para ver se alguém me conseguia o contato da minha cantora preferida e que tanto me fez chorar em meus fracassos amorosos no internato do Instituto de Cegos. Prim! prim! prim! Ouvi a voz que tanto conhecia através dos discos e dos rádios: Alô! É a Katia? Quero te homenagear no Referendo Microfone Braille, e, gostaria
também que você cantasse para os presentes nesta edição do Microfone Braille, pode ser? Ela ficou em silêncio por um instante, chega gelei um pouco. Assim, ela respondeu: Mas, o que fiz para merecer esta homenagem? Então respondi: Amiga, você além de nos alegrar com estas belas canções e bela voz, você ainda nos emprestou sua voz para o Sistema de computadores o Dosvox!1
1 Leitor de tela para computadores. Tal tecnologia possibilita que a pessoa com deficiência visual possa obter as informações concernentes que estiver na tela do computador.
Tamanha foi a minha alegria, ela topou. Mas, como eu a traria? Ainda não tinha os recursos! Então, me surge uma ideia, vou em busca dos políticos que já sabemos que tem compromissos com nossa causa. Até que fim deu certo, trouxemos Katia e foi sucesso total. Realizamos a 6ª Edição do Microfone Braille no auditório do Instituto de Cegos, que recebeu um grande público. Além de curtirmos a Katia, ouve também o lançamento do livro de uma autora deficiente visual Riuda Veloso. Referencial? Isto é o que me faz continuar a frente deste magnífico evento, ele foi um verdadeiro estouro.
Após uns tempos, ouve-se a notícia, “Microfone Braille este ano realiza o casamento do radialista Domingos Sávio com a pedagoga Adryana Silva”. Não, como pode? Dentro do mesmo evento? Como? Pago para ver isto!!! Eram estas as indagações que as pessoas faziam quando eu e minha futura esposa entregávamos os convites. Combinei com ela para não aprontar aqueles atrasos que sempre as noivas têm como praxe nas solenidades matrimoniais. Porém, as coisas às vezes não sai como combinamos, saem melhor!
Eita! Chega o dia 02 de dezembro de 2015! É o grande dia de todos saberem como se dará a realização de meu casamento no evento do Microfone Braille. Com um grande público de convidados e curiosos, às 18 horas, com uma hora de atraso, inicia-se as solenidades da 7ª edição do Referendo Microfone Braille. Contudo, todos queriam mesmo era saber como o produtor do evento iria encaixar o matrimônio neste denso e dinâmico evento.
O atraso ocorreu por conta de um engarrafamento no centro de Abreu e Lima, município vizinho, que liga o Recife ao Igarassu. Entretanto, eu não poderia iniciar a solenidade sem a presença do Coral da Igreja do Espinheiro e o serviço da audiodescrição. Assim, às 18 horas abri a solenidade me desculpando, mas, pontuando o quanto seria significativo e marcante aquele momento para mim e as pessoas que são como família. Enquanto era formado a mesa de abertura e os presentes cantavam o Hino do Braile do autor/professor Gildo Soares da Silva; eu pensava: Como vou me sair se a noiva não aparecer a tempo? Engano! Ela já havia chegado,
muito antes do coral e do audiodescritor. Assim disse: Nossa! Que maravilha!!! Uma solenidade dentro da outra.
Após o encerramento da Mesa de abertura, repassei a palavra para Yasmim Raquel para iniciação do cerimonial. Saí de cena, e, rapidamente fui trocar de roupa. Voltando para a entrada como noivo, emocionado por ser meu casamento e por acertar no risco que era até então eminente, me embriaguei nos aplausos da plateia. Ao som da música de Lulu Santos, entrei com minha mãe, e fomos para a frente, onde estava a bancada dos vereadores à espera da minha tão sonhada amada, a entrada de minha noiva, Adryana Silva.
Com rosto e olhar tímido, como lhe é peculiar, ao som da música de Elba Ramalho, aí vem minha quase esposa acobertada de aplausos. Nem o público, nem a própria Adryana, nem o pastor Roberval Góis entendiam como aquele momento foi materializado. Depois de tudo, ou seja, o casamento, volta-se novamente para a entrega das placas e certificados dos homenageados da 7ª edição do Referendo Microfone Braille. Ainda nesta noite foram lançados o artigo científico da Pós-Graduação da pedagoga Fernanda Ribeiro e o livro Vila de Cosmos do poeta/escritor Edmario Jobat, todos com versão em Braille.
Se aproxima o ano de 2016, e com ele as preocupações de como seria a 8ª edição do renomado e crescente evento. Mediante as circunstâncias, mais uma vez apelo para a Câmara de Vereadores, para ajudar e viabilizar a esta edição. Ousamos incluir entre os homenageados a comunicadora/jornalista, apresentadora do Jornal do Meio Dia da TV Jornal Recife, Graça Araújo; e, o cantor e compositor Nando Cordel. Ambos os homenageados nos rendeu um grande público de fãs e admiradores. Como pudestes perceber, desde a 5ª edição, procuramos sempre proporcionar uma novidade. Nesta especificamente, trouxemos o lançamento do CD da cantora Marília Mendonça, que é pessoa com deficiência visual.
Na 9ª edição do Referendo Microfone Braille tivemos a apresentação de Emanuel Dantas, o Hino de Braille interpretado pelo Coral do Espinheiro, o lançamento do CD de piano do ex professor do Instituto de Cegos, Antônio Carneiro, a participação do tecladista Dmário do município do sertão pernambucano, São José do Egito, teve também uma exposição da Universidade Maurício de Nassau, com bicicleta adaptadas e uma calçada artificial sensorial.; e, no final um grande show do cantor de forró, Muniz do Arrasta Pé. O Referendo Microfone Braille veio mesmo para a cidadania e a inclusão social, sem desgrudar de seu objetivo principal, levar a inclusão.

4. SONHOS CONQUISTADOS

O Referendo Microfone Braille foi criado com o objetivo de agradecer, mas, não tão somente, ele também foi criado com o cunho de valorizar as pessoas com deficiência em suas diversas áreas e forma de atuação; e disto jamais abrirei mão.
A 10º edição vem com o peso de abrir o caminho para o festejo de uma década de realizações; e, em minhas memórias relembro a primeira edição realizada em 2009, lá na cidade de Cubatão-SP, e hoje, passados tantas coisas, estamos na comemoração da 10ª edição. Eu nem imaginava que chegaria tão longe!
Olhando para o passado, observando todas àquelas dificuldades, desde o momento de minha infância, dos dias em que eu e meu irmão tocamos na feira, do beliscão em nossas orelhas, da despedida de minha terra, da chegada em Santos-SP, da conquista de meu canudo, da volta a minha terra e as conquistas de todas as edições do Microfone Braille, posso dizer que um sonho foi conquistado. Tive muitas dificuldades, porém, revivendo isso, posso compreender que nada nessa vida foi em vão, ao contrário, tudo teve um propósito. Assim, meu novo sonho é que esse evento venha se difundir em todos os estados, que as pessoas com deficiência possam ser valorizadas e reconhecidas por seus méritos e capacidades. Neste aspectoª, a única coisa que posso dizer agora é, muito obrigado ao que colaboraram com o Referendo Microfone Braille.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A metodologia autobiográfica permite um libertar, pois, insurge ao sujeito um reconhecimento e uma oportunidade de compreender os fatores que decorreram de sua vida não como um mero acaso, mas, como construções de saberes. No campo da inclusão social, o artigo autobiográfico permite também um difundir de informações ao que concerne à uma luta social, bem como uma compreensão de que a deficiência muitas vezes não é um impeditivo à um sujeito, ao contrário, talvez ela, a deficiência, proporcione um motivar a aquele que tem o sonho e desejo de deixar sua marca na história.
Este artigo autobiográfico elucidou as narrativas de um sujeito que buscou em si o anseio para o outrem de valorização; e, reconhecimento dos sujeitos que aprenderam a superar suas deficiências, tornando-as como fonte motivacional. O então saudoso Domingos Sávio, pessoa com deficiência visual, lutou bastante para almejar seu sonho de ser radialista; e, foi nessa busca pelo seu sonho que ele vislumbrou homenagear àqueles que vieram ao mundo para fazer a
diferença. Vale salientar que o personagem deste artigo não imaginaria em sua infância que iria para Santos-SP e voltaria a sua tão amada terra para deixar sua marca na história.
Mediante suas lutas e sonhos, Domingos Sávio crio o evento Microfone Braille, ao qual já foram realizadas nove edições, e, o mesmo já está planejando a décima edição. Acaba sendo mágico observar todas essas narrativas e histórias de exemplos como a desse guerreiro pernambucano. Domingos Sávio de algum modo está viajando nos ares da inclusão, viajando em todos os campos, com o intuito de levar informação e transformar a vida daqueles que sofrem por falta das tão renomadas notícias que libertam o povo da segregação; e, o então saudoso radialista, está proporcionando aos que ficam com os ouvidos atentos às informações do que virá na luta pela inclusão e dos direitos das pessoas com deficiência.

REFERÊNCIA

ABRAHÃO, M. H. M. B. Memória, narrativas e pesquisa autobiográfica]. 2013. Disponível em: < http://www.seer.ufrgs.br/index.php/asphe/article/view/30223/pdf> Acesso em: 08 de novembro de 2017

FERNANDO, Paulo. Vereador Paulo Uchôa é um dos homenageados pelo Referendo Microfone Braille Edição 2014. 2014. Disponível em: Acesso em: 08 de novembro de 2017

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 17ª ed. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1987.

MELLO, Oswaldo. Lançado o “Referendo Microfone Braille”, movimento pelas pessoas com deficiência. 2009. Disponível em: Acesso em: 08 de novembro de 2017.

POLLAK, Michael. Memória e identidade social. (1992). In: Revista Estudos Históricos, Rio de Janeiro, nº 10, CPDOC, FGV.
SANTANA, M. F. de. Referendo Microfone Braille presta homenagens na Sede do Poder Legislativo de Igarassu. 2015. Disponível em: Acesso em: 08 de novembro de 2017.

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